Porque é que apoio a Coligação AGIR-PTP-MAS?

Baseado no discurso proferido aquando da apresentação de candidaturas da Coligação Agir-PTP-MAS na sede do MAS em Lisboa.

Boa noite a todos e todas, em primeiro lugar quero agradecer o convite do MAS para candidato Independente na lista de Lisboa da Coligação. Convite que aceito com muito orgulho.

Porque é que aceitei este convite? Porque é que esta coligação, esta campanha e o seu resultado são tão importantes?

Dizia Umberto Eco em entrevista ao Expresso a propósito da crise dos refugiados “vai acontecer algo terrível antes de se encontrar um novo equilíbrio”, uma frase que diria eu se pode aplicar de forma mais geral aos tempos que correm.

De facto, vivemos numa era de transição em que os equilíbrios do passado e o status quo vigente é insustentável. De uma forma ou outra a economia, sociedade, a política e as próprias fronteiras vão se todas transformar… aliás nós temos visto isso mesmo a acontecer (Ucrânia, Médio-Oriente, Crise, Austeridade…)

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O pano de fundo e principal motor destas transformações é a grande crise que se iniciou em 2008. Uma crise que perdura e que como o recente crash da bolsa Chinesa (e restantes praças financeiras) mostra, pode voltar a intensificar-se. Mais, olhando para esse crash e vários outros indicadores, tudo aponta que vem aí uma segunda vaga da grande crise.

Uma segunda vaga que vai apanhar uma economia e sociedades ainda feridas, sem uma verdadeira recuperação. Mesmo Nos Estados Unidos e Reino Unido (países que tiveram das mais altas taxas de crescimento dos últimos anos) os salários continuam abaixo dos níveis pré-crise. Então de Portugal nem se fala… Entre o interminável rol de estatísticas que podem descrever o que se passou neste país escolho duas:

– Cerca de 400.000 emigraram nos últimos 5 anos,

-O número de trabalhadores ao abrigo da contratação coletiva era perto de 2 milhões em 2008, agora são 260 mil (quase 90% de quebra)

Para lá de todo o sofrimento e esperança despedaçada que estes números revelam, isto aponta para uma sociedade e um mercado de trabalho que sofreu profundas mudanças. Este país e sociedade de 2015 não é a mesma de 2008 e essas mudanças têm de ter uma tradução política, o mapa político partidário não está numa redoma, imune a estas dramáticas transformações.

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Por isso assistimos por todo o lado, nomeadamente na Europa, a um mesmo fenómeno a actuar sobre o mapa político. Um fenómeno caracterizado por duas grandes dinâmicas 1) partidos do centro a recuar, especialmente os Partidos Socialistas ou Social-liberais, 2) reforço de novas forças com mensagens alternativas ao discurso dominante e fortemente críticas da situação actual (algumas destas forças são pré-existentes, mas antes ocupavam um lugar marginal no tabuleiro político).

Isto manifesta-se em diferentes formas e intensidade dependendo da especificidade de cada local, região ou país: Podemos em Espanha, vitória de Corbyn para a liderança do Partido Trabalhista em Inglaterra, a Frente Nacional em França … Ou o grande caso desta primavera Verão, a tragicomédia Grega, que também teve alguns momentos épicos como o referendo. Apesar da traição do renegado Tsipras (nome que para todo o sempre deverá ficar associado à infâmia), estes desenvolvimentos na Grécia foram muito importantes e no global positivos. Primeiro porque a desmoralização e descrédito da Esquerda não parece ser tão forte como alguns chegaram a temer e mais do que isso, porque este processo proporcionou grandes lições.

Lições que muitos já conheciam, mas que são agora claras para sectores mais vastos da população, provavelmente não a maioria, mas certamente muito mais gente do que anteriormente. Destas lições há duas que se destacam:

1) Quanto ao significado do euro e da união europeia, não pode haver ilusões, só há caminho no confronto e em ruptura com este projeto neo-colonial e anti-democrático.

2) Neste momento sem medidas de carácter revolucionário é impossível resolver a crise a favor das classes populares. Qualquer força que queira alcançar novos equilíbrios mais favoráveis, ou tão somente que reponham o equilíbrio entre classes existente há dez anos, tem de estar disposto a liderar e desencadear uma revolução.

Mas estas lições só serão úteis se estivermos dispostos a tirar delas as devidas consequências e implantá-las na prática! È preciso existirem forças no terreno que deem corpo a estas lições… E esta é uma primeira pista para a importância desta Coligação.

Porque aqui em Portugal é com alguma piada que oiço os “comentadores”, na sua esmagadora maioria cães de fila intelectuais do regime, a dizer “Porque é que não há Syriza em Portugal? Porque é que não há um Podemos?”. São cegos! Ou pior, estão deliberadamente a atirar areia para os olhos do povo. É que aqui em Portugal também o “centrão” recua (vamos ver resultado nas legislativas) e há forças fora do baralho a ganhar peso! Pensemos nas candidaturas independentes às autárquicas, no Marinho e Pinto, no Livre, no reforço do PCP e resistência do Bloco… Aliás, estas são das eleições com maior número de listas candidatas (creio que 19 no total) e é muito provável que tenhamos o parlamento com maior número de forças partidárias representadas de todo o sempre. A grande diferença entre Portugal e outros locais é que aqui ainda não há um único foco polarizador que concentre todo o descontentamento e vontade de mudança.

Ora é neste contexto que a Coligação AGIR-PTP-MAS é fundamental. É fundamental que no meio deste descontentamento ainda difuso exista uma força consequente há esquerda que se faça ouvir e ganhe visibilidade.

Uma Esquerda não rendida a esta Europa que tritura os seus povos e a democracia. Uma Esquerda diferente de um Livre e do seu líder Rui Tavares, obediente servo do eixo Bruxelas-Frankfurt que se candidata agora para mordomo do Costa.

Uma esquerda que fale sem papas na língua e de forma radical contra o saque levado a cabo pela oligarquia, que em Portugal é feito muito às custas das famigeradas Parcerias Público Privadas e privatizações.

Uma Esquerda que denuncie o “Arco da Corrupção” doa a quem doer! Que não seja como outros ao exemplo de Francisco Louçã, que crítica a corrupção quando ela vem da ala direita do “arco da corrupção”, mas depois faz defesas na diagonal a Sócrates e outros elementos do PS quando estes se vêm a contas com a justiça… É preciso denunciar a casta TODA não apenas uma facção dela!

Muito Importante camaradas, talvez para mim até o mais importante. Uma esquerda que não tem medo do povo nem da revolução! Porque nós sabemos que há na Esquerda quem tenha medo dos novos movimentos e das explosões de revolta das massas não tuteladas por um qualquer aparelho partidário ou institucional. É que para muita Esquerda essas coisas “terríveis” de que fala Humberto Eco são também estas revoltas populares não comandadas. Para lá da retórica contestatária, por vezes parece que certa Esquerda tem um enorme medo destes movimentos de massas e ainda mais que tais movimentos possam por em causa o atual regime… Nós pelo contrário sabemos bem que esses movimentos bruscos das massas são um elemento essencial para virar o jogo e iniciar o contra-ataque, mesmo tendo em conta todas as contradições inerentes a tal tipo de erupções… A nossa tarefa estratégica não é defender este regime e ficar a tremer de medo quando ele é abalado. A nossa tarefa é de construir um novo, dar uma alternativa substancial, logo radical, às amplas massas deserdadas pela Grande Crise económica em curso!

E isto não vai lá só com BEs da Marisa Matias que recentemente ergueu a cobardia como virtude na política, ou de uma Catarina Martins que elogiou o cinismo da Merkel face à situação dos refugiados. Isto não vai lá com Rui Tavares e outros “Livres” ao serviço de Bruxelas. Isto não vai lá só com um PCP, que é das autarquias aos sindicatos, um dos pilares do atual status quo em Portugal…

A Esquerda que não tem medo da fúria do povo tem de por o pé na porta! Tem de ter voz que se oiça e caras que se vejam! É por isso que eu estou aqui, é por isso que com todo o orgulho sou candidato por esta coligação!

Porque camaradas, isto da Crise não está resolvido, ainda muito vai acontecer. Em Portugal a reconfiguração do mapa político ainda está na sua alvorada, ora esta esquerda consequente e sem medo da revolução tem de ter uma palavra a dizer nestas reconfigurações. Esta é uma coligação que junta dois partidos estabelecidos, uma recente organização que tem a sua génese nos grandes protestos de 2012-2013 e que conta com uma figura pública mediática, a que se acrescentam ainda outros movimentos, associações e independentes. Será preciso mais? Claro! É isto fácil? Não! O próprio percurso desta coligação isso o demonstra. Mas chegamos até aqui e agora temos uma campanha com visibilidade, que está presente em todo o país. Mais, a simples existência desta Coligação AGIR-PTP-MAS por si só, é já um passo em frente na reconfiguração politica à Esquerda e um sinal do início do contra-ataque popular.

Camaradas, como diz a canção de José Mário Branco, “eu vim de longe”, nós vimos de muito longe… e podemos, devemos e temos de ir muito longe!

Coligação AGIR – PTP – MAS facebook, twitter, web

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Combater o Bloco Central

Analisar sondagens é sempre um exercício difícil. O que se pode apresentar relativamente a elas é sempre uma teoria como outra qualquer, sem especial fundamentação, pouco acima do palpite. O que a seguir se escreve, e que justifica um apelo ao voto, assenta nesta premissa. O autor admite vir a ser surpreendido, pese embora achar que o que diz abaixo tem correspondência com a realidade e retrata devidamente a dinâmica em curso.

Três aspectos parecem ser fáceis de prever relativamente ao dia 5 de Outubro: nenhum partido terá tido maioria absoluta; o partido mais votado terá de formar um Governo de coligação; as alternativas serão poucas. Mesmo que, como parece ir acontecer, vários deputados de novos partidos (Livre, PDR, eventualmente PCTP/MRPP) entrem para o parlamento, não serão em número nem em peso suficiente para completar uma maioria absoluta nem do PS, nem do PSD. As soluções serão escassas: ou são eleitos nas listas da PaF deputados suficientes so CDS para formarem Governo com o PS, ou o Bloco Central vai ser a consequência natural destas eleições.

Que observou o processo grego e o desmoronamento do PASOK (processo em que surgiu até uma palavra nova, “pasokização”) sabe que os Blocos Centrais podem ser desastrosos para o aparelho partidário da burguesia. Obviamente, o aparelho partidário burguês, geralmente bicéfalo e de regeneração fácil – lembram-se do PRD? -, é um inimigo materialmente pouco influente. Mas é um inimigo que também tem de ser derrotado. E forçar o Bloco Central, guinando a oposição para a esquerda, para o PCP e o BE, é neste momento a melhor forma de assegurar a erosão desse aparelho partidário, ao mesmo tempo que se faz trabalho na frente de massas.

Militante do PCP, apelo por isso ao voto na CDU para forçar o Bloco Central e iniciar esse processo. Porque nada esperamos do PS, e porque compreendemos que ele é o esteio fundamental do regime de Novembro, sem cuja derrota nenhum avanço significativo no combate à contra-revolução será possível, nós, aqueles que queremos não apenas livrar-nos deste Governo de desastre mas também do regime antipopular que há cerca de 40 anos nos inferniza a vida, não podemos deixar de apontar ao coração da Besta, contentando-nos em feri-la de lado. Recai sobre nós uma responsabilidade muito importante no próximo dia 4. Votar CDU, contra o PS e a PaF, é saber aproveitá-la.

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Unidade da Classe e Unidade das Siglas

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O recrudescimento da ofensiva capitalista, desencadeada com a crise financeira, fez-se numa época de avançado desmantelamento das organizações de classe, marcadas por uma sucessão de reveses históricos. Da política eurocomunista de conciliação de classes ao pacifismo kruschevista, passando pela deslocalização de vastos sectores da indústria europeia para países asiáticos com a liquidação de importantes frentes da classe operária organizada (os mineiros ingleses, os operários fabris em França, no Norte de Itália, etc.), tudo concorreu para uma desarticulação profunda da classe em toda a Europa. No eclodir da crise, as organizações proletárias revolucionárias eram ínfimas, tinham uma correlação de forças profundamente desfavorável, e, em inúmeros países europeus, eram dirigidas por oportunistas, burocratas, agentes da burguesia, gente de aspirações pequeno-burguesas.

Duas respostas se têm perfilado, no debate político à esquerda, sobre como enfrentar esta situação. A primeira, decididamente hegemónica, defende a união de todas as agremiações que se reclamem da esquerda, com a excepção dos partidos burgueses que porventura o façam, próximos da Internacional Socialista ou do seu espectro político. Esta forma de unidade visa contrabalançar, no plano eleitoral, o peso-monstro dos partidos burgueses, forçando reformas por via parlamentar. A unidade de esquerda chegaria ao Governo e poderia aplicar um programa mínimo – porquanto, no plano dos princípios, nenhuma questão fundamental separaria as forças políticas à esquerda dos PSs -, recuperando direitos desmantelados pela investida neoliberal e fazendo avançar as conquistas sociais dos trabalhadores. No limite, o avanço dessas conquistas sociais significaria uma alteração favorável da correlação de forças e abriria portas a voos revolucionários, no entender dos que cultivam esta ideia.

Há um equívoco fundamental sob esta forma de pensar. Não apenas a eventual discrepância em questões fundamentais entre as forças de esquerda, que poderia existir nalguns países europeus (caso da Grécia, entre PC Grego e Syriza), mas não se vislumbra noutros (entre a Esquerda Unida e o Podemos, no Estado Espanhol). O problema de fundo é a fetichização da frente eleitoral que esta leitura encerra. Com perdão da crueza, a burguesia não tem medo de pedaços de papel dobrados em quatro e enfiados numa urna. Já foram depostos, exilados, mortos, e enfiados na cadeia suficientes Mossadeqhs, Goularts, Allendes, e Zelayas, para termos esta evidência bem presente na nossa cabeça. A burguesia teme a força organizada e determinada das organizações proletárias. Quando não existem tais forças, ou quando é claro que os movimentos de massas porventura existentes tenderão a procurar um acordo e não revelam disposição combativa para varrer a burguesia se tiverem oportunidade, nada a faz temer. Nessa situação a classe dominante marcha, indiferente a protestos de vivo repúdio, por cima dos direitos conquistados, das leis, das obrigações que assumiu.

É pois importante compreender que a «unidade de siglas», frente eleitoral da esquerda, por melhor intencionada que seja a sua proposta, é uma inutilidade sem a organização, pela base, das massas trabalhadoras. Essa organização bairro a bairro, local de trabalho a local de trabalho, escola a escola, aldeia a aldeia, constitui uma força material, um músculo efectivamente existente da classe trabalhadora, perante a força, também ela material, da burguesia. É um puro engano imaginar que a burguesia se mantém no poder porque os seus partidos têm mais votos. Isso é um elemento residual do problema. A burguesia tem o poder por dispor de um conjunto de aparelhos ideológicos (TVs, jornais, igrejas, editoras, escolas) e repressivos (exércitos, polícias, cadeias, tribunais) com que formata os trabalhadores para aceitarem a sua dominação por um lado, e lhes bate quando não o fazem por outro. Tais aparelhos manter-se-iam intactos no dia em que uma união de esquerda ganhasse uma eleição, e cedo se livrariam dela, ou a cooptariam (veja-se o caso grego). Para os defrontar, só com um poderoso e determinado movimento de massas, unindo toda a classe em torno do objectivo de se livrar da exploração. Movimento que, não temamos as palavras, teria de recorrer a quaisquer meios para prover a sua libertação, entre os quais, como aconteceu sempre e em toda a história, os métodos violentos.

Organizar este movimento de massas, unindo toda a classe em torno dos seus interesses, é esse sim o grande trabalho que compete às forças de esquerda. Mais do que preocupar-se com esquemas e truques de engenharia eleitoral para alargar a sua base parlamentar, é na luta de massas que se decidiram, e se vão decidir sempre, os antagonismos de classe. Naturalmente, tal não exclui a participação eleitoral, como forma de transformar as próprias campanhas eleitorais em ocasiões de alargamento e reforço da unidade dos trabalhadores e do seu movimento de massas. Mas com a plena consciência do papel em absoluto secundário dessa frente no cômputo geral da luta. É previsível que alguns elementos de determinadas forças de esquerda, ainda com ilusões reformistas, possam sobreavaliar a sua relevância: mas cumprirá fazer-lhes ver que, num mundo em que as regras da democracia burguesa vigoram quando e enquanto a burguesia o entender (quantas vezes não as suspendeu ela, as alterou expressamente, ou as ignorou em gala, só em Portugal, nos últimos 40 anos?), só a força da classe trabalhadora organizada é um instrumento cabal para a luta. Uma classe trabalhadora unida, sim: em torno dos seus interesses, das suas organizações de classe, no seu conjunto, unida no sentido literal do termo.

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O Combate ao Racismo e a Unidade da Classe

«Esta organização dos proletários em classe, e deste modo em partido político, é rompida de novo a cada momento pela concorrência entre os próprios operários. (…) A coesão maciça dos operários não é ainda a consequência da sua própria união, mas a consequência da união da burguesia, a qual, para atingir os seus objectivos políticos próprios, tem de pôr em movimento o proletariado todo, e por enquanto ainda o pode» (Marx & Engels, in Manifesto do Partido Comunista)

Há uns meses atrás tive o gosto de, na sequência de mais uma das já incontáveis intervenções repressivas das forças policiais num bairro pobre dos arredores de Lisboa, participar num debate promovido pela Associação Moinho da Juventude, na Cova da Moura. Uma das intervenções que mais me marcou nessa tarde foi a de um jovem, de origem africana, que dizia achar extraordinário viver num país cujo hino começa com a expressão «Heróis do Mar», cuja bandeira ostenta a esfera armilar, e onde, ainda assim, é aparentemente hegemónica a ideia de que a população não é particularmente racista. Era justíssima a intervenção e, à luz dos acontecimentos que a possível entrada de um contigente na ordem de algumas centenas de refugiados do Médio Oriente em Portugal – muitíssimo menos do que as largas centenas de milhares que vivem hoje, por exemplo, no vizinho Líbano -, ela suscita uma reflexão extremamente importante para os nossos dias, sobre um tema que em geral se considera menor, sem que se perceba muito bem porquê.

A divisão dos trabalhadores e a garantia de que estes não podem unir-se para defrontar convenientemente a exploração capitalista é um esforço a que a burguesia dedica os seus melhores esforços,  no qual empenha os seus quadros mais preparados, para o qual tem reservadas somas prodigiosas de dinheiro, meios tecnológicos dos mais avançados, organizações as mais complexas. E erra de forma clamorosa quem considera que a divisão da classe é sempre feita de bastão em punho, viseira descida, cão-polícia pela trela, polícia-cão gritando «à carga!». Engels dizia que a história humana não conheceu criatura mais burgessa que o moderno homem de negócios, mas a realidade demonstra que este sabe ser, ou pelo menos sabe contratar para o servir, homens dotados de uma especial atenção à subtileza, e capazes de a usar com velhacaria.

Marx e Engels, vemo-lo na frase acima, sabem que em capitalismo os trabalhadores estão condenados a uma saga contraditória de concorrência entre si e necessidade de unidade de classe. Concorrem por melhores salários, e unem-se para obter melhores salários. Concorrem por promoções, e unem-se prestigiar o sector de actividade a que pertencem. É escusado dizer que a grande aposta da burguesia é na exploração de tudo o que possa incrementar essa disputa, e em dissuadir tudo o que possa reforçar a unidade da classe. São vários os mecanismos puramente gestionários para o obter dentro da própria empresa: leques salariais alargados, comissões, prémios, estímulo da competição e do individualismo, são vários deles. Mas a burguesia sabe que a destruição da unidade da classe não é um problema que se deva entregar aos gestores de empresas apenas e só. É uma questão política fundamental, que todos e cada um dos seus instrumentos de dominação têm de promover. E a melhor forma de o fazer é transpor para a competição entre os trabalhadores aspectos da própria concorrência entre empresas: e se há empresas melhor munidas que outras, criam-se trabalhadores melhor munidos que outros.

Num insuportável filme australiano que vi há uns anos, sobre bandos de neo-nazis que atormentam a comunidade vietnamita numa cidade qualquer do Norte daquele país, a dado passo um deles dizia «eu tenho enorme orgulho na minha herança de homem branco! Um dia poderá ser tudo aquilo que eu tenho!». Poucas frases poderiam ser mais absolutamente rigorosas na definição de um sentimento profundo, arcaico, inconsciente decerto, informe enquanto ideologia, mas extraordinariamente verdadeiro: ser branco é um privilégio. Use-se a palavra com tudo o que ela tem, e não temamos recorrer a ela. Como ser heterossexual, como ser homem, como ser jovem e bonito, como ser adaptado, como não ter deficiências nem defeitos físicos. Um privilégio que, na esmagadora maioria dos brancos que se levantam às 6h da manhã para trabalhar 8 horas e ganhar 500 euros, entre duas longas fastidiosas viagens entre a casa e o trabalho a contar os cêntimos para pagar os óculos do filho, sob a direcção de um patrão autoritário e de um Estado que disputa com o patrão cada migalha de riqueza que o desgraçado produz (para entregar ao patrão assim que possa), ser branco é tudo aquilo que ele tem. É o que lhe permite olhar de cima para baixo para alguém, o que lhe permite relativizar o seu próprio sofrimento, o que o conforta e o funde numa comunidade maior onde os poderosos também estão. Não há Belmiros de Azevedo ciganos nem Alexandres Soares dos Santos vindos da Síria ou da Líbia num barco apinhado. O trabalhador branco é da estirpe dos primeiros, e naturalmente desprezará os segundos. É devido chamar mesquinhez à mesquinhez, mas se não percebermos como a mesquinhez nasce, nunca a iremos erradicar.

A burguesia sabe perfeitamente que esses privilégios existem. Foi ela que os compreendeu, que os exacerbou, que os transformou num elemento funcional do modo produção onde quem manda é ela. Por que outro motivo veríamos a burguesia levantar muros ao redor da Europa, cercá-la de arame farpado, pôr homens armados em torres de vigia, levar ao engano milhares de sírios para campos de trabalho na Hungria, bater-lhes, fazê-los morrer no mar? Expulsos da sua terra pelas bombas assassinas da NATO e das organizações que o imperialismo pagou para desestabilizarem países inteiros (o mesmo imperialismo que ousa falar de combate ao terrorismo), chegados às margens da Europa os condenados da Terra cumprem uma segunda função: a de servirem de bode expiatório da exploração que as potências ocidentais impõem em sua casa, alvo das frustrações dos trabalhadores cada vez mais pobres, cada vez mais exasperados, cada vez mais ressentidos com a frustração de expectativas de vida. A absoluta ausência de um horizonte de vitória possível, de melhoria, de um qualquer lugar onde possam respirar – reforçada pela hegemonia insuperável do sindicalismo de gabinete, do pacto social, e do eurocomunismo no essencial dos países europeus -, só faz descer ainda mais prodigiosamente a espiral da raiva – e incapaz de conquistar mais, o trabalhador tentar por todos os meios não perder mais. Quer conservar o que tem, o que está, o que sobra. E o pouco que lhe sobra for a cor da pele, vai agarrar-se a esse resquício com quantas forças tiver.

Os que chegam de novo, por seu turno, ainda mais explorados que o branco de há pouco, permanentemente ameaçados com a deportação, a cadeia, a violência da polícia, do SEF, do diabo, são no entanto mais braços para o trabalho comum. Trabalho a que metem as mãos com afinco, por vezes: voltando à Cova da Moura, não pude deixar de sentir uma enorme satisfação quando um dos primeiros murais que vi representava ninguém menos que Amílcar Cabral. A consciência da opressão – que a omnipresença dos casse-têtes de polícia, mesmo que estes quisessem esquecê-la, ali estaria para lembrar – é grande. A combatividade também. Mas se o branco arremete contra o estrangeiro que rouba empregos e vive da segurança social, o segundo assume como suas as críticas que lhe fazem (muitas vezes não sem inteligência: há actividades ilegais manifestamente mais rendosas que o trabalho escravo que a burguesia lhe reserva, e o branco que, de resto, também acha muito bem que não esteja um cigano à espera dele atrás do balcão da Zara), sobrevive como é previsível sobreviver-se ao desemprego prolongado e ao enxovalho geral, e de parte a parte se vão gerando e reforçando incompreensões, desentendimentos, distâncias. O único ganhador desta disputa, previsivelmente, é o burguês que arrebanha indiferentemente a riqueza produzida por mãos europeias, angolanas, sírias, ou brasileiras.

Lançar pontes que quebrem estas divisões pode ser uma tarefa extremamente difícil. Congregar e fazer compreender que os interesses do conjunto da classe trabalhadora ultrapassam quezílias e divergências religiosas, tonalidades de epiderme e texturas de cabelo, é um esforço cuja dimensão é igual à da tarefa que ele cumpre: a de garantir a unidade da classe. Dizem alguns que a luta sectorial é secundária em relação à luta de classes, dizendo outros que a precede. O erro é previsível, porque ambos se esquecem da dialéctica entre ambas: não há unidade da classe sem desmantelar todas as coisas que a separam e desorganizam, num esforço difícil, paciente, complicado, mas vital, de ruptura com todos os atavismos, todos os idealismos, todas armadilhas cuidadosamente montadas pela burguesia. Não há proletariado desorganizado: há proletariado organizado pela burguesia, e proletariado organizado pelas suas organizações de classe. E a primeira – e hoje esmagadoramente maioritária – fracção de classe do proletariado demorará ainda muito tempo, e precisará de ser educada na luta concreta pelas mais diversas formas, até se despojar da tralha ideológica xenófoba, chauvinista, racista liminarmente, que a burguesia alimentou no seu espírito.

Enquanto refugiados sírios se preparavam para chegar a Portugal, fotos de sem-abrigos portugueses nas ruas das principais cidades povoavam as redes sociais denunciando que se apoiavam estrangeiros antes de se apoiarem nacionais. Cravando unhas em redor do privilégio de serem portugueses e reclamando apoio para os seus compatriotas antes de se atender a desgraça «deles», a fracção desorganizada da classe não se lembrou de fazer uma pergunta que ocorre imediatamente à esquerda: como foi possível que aqueles homens e mulheres se amontoassem em filas compactas, longas, imensas, à espera de uma sopa quente? O que fizemos nós para o impedir? O que podemos fazer para que, com o seu trabalho, o seu dinheiro, a sua dignidade, não tenham de mendigar comida às Jonets deste mundo? Se a fracção recuada das massas se indigna com a pobreza, com o absurdo de miséria a que milhares são condenados neste país temos uma proposta para eles: saiam à rua, exijam o fim dessa situação, combatam quem a criou, o patronato, os governos e partidos ao seu serviço, o único sistema que reserva a seres humanos uma situação dessa natureza, que é o capitalismo. E seguramente, nessa luta, contarão com o apoio de muitos e muitos imigrantes e filhos de imigrantes, gente que viu a miséria dos musseques, dos morros, das ruas árabes, das cidades do Bangladesh, e não a quer nem para si, nem para os seus, nem para os que vivem no país que os acolheu. Nessa altura entenderão o que só dessa forma se pode entender.

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Crise dos Refugiados. O cínismo de Merkel e quando as vítimas do Império batem à porta…

A crise dos refugiados em fuga da Síria, Afeganistão, Líbia e outros teatros de guerra ou catástrofe social tem se intensificado nos últimos tempos. Antes de mais considero importante afirmar total solidariedade com tod@s que sofreram e sofrem terrivelmente nestas migrações. Gente que literalmente enfrenta uma morte certa (ou pior) no seu país de origem e todo o tipo de incertezas, muitas vezes fatais, na procura de um refúgio seguro… Mas a empatia e solidariedade sendo princípios importantíssimos por si só não levam a muito. São necessárias decisões e mudanças políticas, nomeadamente na Europa e Médio-oriente, para resolver esta catástrofe. Do muito que se poderia discutir sobre o tema, chamo atenção para duas questões.

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Merkel a Cínica

Recentemente Merkel e a Alemanha têm sido elogiados pela sua postura “de braços abertos” nesta crise… Mas a Alemanha que afirma estar disposta a receber os refugiados é a mesma Alemanha que tem constantemente reafirmado a importância de se cumprir a legislação europeia, nomeadamente o tratado e regulamentações de Dublin (aqui e aqui). Ora de acordo com Dublin a maioria dos migrantes e refugiados que entram na União Europeia devem ser acolhidos e os seus pedidos processados pelo estado membro onde esses migrantes entraram na UE. A Alemanha não tem fronteiras com nenhum estado que esteja fora da União Europeia, logo fica quase completamente imune à vaga de refugiados que bate à porta dos estados membros-fronteira (como a Itália a sul e a Grécia a Leste).

A Hungria e o seu proto-ditador têm sido retratados como os “maus da fita”, sem dúvida que o regime proto-nazi de Orban merece todo o nosso ódio e desprezo. Mas se a Hungria não deixa passar os migrantes para a “bondosa” Alemanha é porque simplesmente está a cumprir a legislação europeia. De resto a Alemanha (mesmo no decorrer desta crise) várias vezes reafirmou que esta deve ser cumprida, sobretudo a parte em que todo o processo e acolhimento deve ser feito no estado membro de entrada dos refugiados. Aliás, quando há dias a Hungria deixou passar alguns comboios com refugiados em direcção à Alemanha, logo o governo Alemão lançou críticas e reafirmou a necessidade da Hungria cumprir as regulações

O cinismo Alemão personificado em Merkel é de proporções equiparáveis à dimensão desta tragédia… Como é que mesmo à Esquerda (e.g. Catarina Martins) há quem faça elogios a Merkel à algo que não percebo. Quando a Alemanha decidir alterar os tratados de Dublin, de forma a que os refugiados sejam acolhidos no país da sua escolha dentro da UE, aí sim haverá razões para saudar Merkel e a Alemanha, mas não é isso que a Alemanha está a fazer. Merkel tem jogado o hipócrita papel de quem se apresenta como maternal casa de acolhimento a todos quantos queiram, quando ao mesmo tempo exige aos estados-fronteira, nomeadamente a “maléfica” Hungria, para que cumpra as “regras” e não deixe passar os migrantes!

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Quando as vítimas da barbárie imperialista batem à porta

Mas de onde vêm estes migrantes à procura de refúgio e porque chegam agora em maior número? A maior parte deles vem da Síria, muitos são da Líbia ou utilizam esse país como trampolim para chegar à Europa… Ora, quem é que directamente causou o caos e barbárie que leva centenas de milhar, para não dizer milhões, a fugir da sua terra natal em busca de um lugar seguro? Quem é que derrubou Kadafi na Líbia? Quem é que transformou esse país num estado sem lei, presa de fascistas islâmicos e local onde todo o tipo de selvajaria impera? Quem é que apoiou os fascistas islâmicos e outros terroristas com armas, ataques aéreos “on demand” e até tropas especiais no terreno? Pois é, foi o “Ocidente” com vários países da UE  (nomeadamente a França) a demonstrarem até mais vontade em destruir a Líbia que os próprios EUA… E o que dizer da Síria? Quem é que apoiou e incentivou a Al-quaeda e a ISIS na luta contra o regime? Quem é que ainda hoje apoia financeiramente, logisticamente e às vezes até directamente esses grupos? Pois bem, a Turquia e a Arábia Saudita, dois dos maiores aliados do “Ocidente” na região, sendo que a Turquia é inclusive membro da NATO! Aliás, para lá destes dois baluartes no apoio aos bárbaros fascistas islâmicos, as próprias potências ocidentais (nomeadamente EUA, Reino Unido e França) até há pouco tempo também armaram e deram apoio a grupos muitos deles ligados aos fascistas islâmicos.

As actuais vagas de migrantes são resultado directo da interferência das várias potências imperiais no Médio-oriente. Em alguns casos intervenções directas, noutros através do apoio aos seus cipaios locais.

Há alguma perspectiva de fim destas intervenções imperiais? Do fim do apoio “Ocidental” às forças mais bárbaras e reaccionárias no Médio-oriente? Não, antes pelo contrário… Na Síria, o pouco que se fez contra a ISIS por iniciativa dos EUA, em cooperação com as milícias Curdas, foi recentemente posto no caixote do lixo. Basicamente os EUA venderam os Curdos aos Turcos, em troca de um suposto apoio da Turquia contra a ISIS. Mas o que é facto é que armada com esse acordo a Turquia atacou violentamente os Curdos, deixando a ISIS livre de um incómodo inimigo

E o Iémene? Esta é a próxima grande fonte de refugiados. Está aí em curso uma autêntica tragédia , causada  pela agressão ilegal e assassina liderada pela Arábia Saudita de que muito pouco se tem falado. É mais um caso em que toda a hipocrisia e barbárie do império e seus cipaios é por de mais evidente. Enquanto a Arábia Saudita bombardeia civis pelos ares (com bombas e aviões made in “ocidente”), a ISIS faz atentados suicidas por trás das linhas (aqui e aqui).  Aliás, mesmo baluartes imperiais da imprensa como o Washington Post, admitem que nos territórios em que os mercenários sauditas afastaram os rebeldes do movimento Houthi. a Al-Quaeda e o Estado Islâmico têm ocupado o vazio. Desde o início da agressão Saudita o Estado Islâmico e a Al-Quaeda têm expandido a área sob seu controlo.

Quem é que ainda se lembra da febre “Je suis Charlie”? A organização por detrás desse atentado foi a Al-Quaeda no Iémen. Exactamente o grupo que mais vantagens está a tirar do ataque Saudita ao Iémen, ataque esse patrocinado pelos mesmos líderes imperiais hipócritas que há uns meses enchiam a boca com o “Je suis Charlie”! O cinismo e hipocrisias imperiais não conhecem limites…

Sem por um fim às aventuras imperiais no médio-oriente, sem por um fim ao apoio imperial aos bárbaros Sauditas-ISIS, a grave crise dos refugiados não será resolvida. Medidas de alívio de curto prazo e outras podem e devem ser tomadas, o problema até pode ser (ou não) mitigado, mas sem um travão à intervenção imperialista o problema não será resolvido.

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A Grande Crise. A #BlackMonday vai bem para lá do #ChinaMeltdown…

A Grande Crise continua a sua inexorável marcha. Agora que parece ter chegado a segunda vaga, deixo aqui uma colectânea de artigos de fundo sobre o processo em curso. Devo dizer que o facto de divulgar estes textos não significa que os subscreva por inteiro. Mas julgo que todos eles proporcionam informação útil para descodificar o presente e dão pistas para reflexões relevantes quanto ao futuro.

A maioria dos artigos foca-se sobretudo nas explicações económico-financeiras da actual crise e análise das características do capitalismo contemporâneo. Mas há outros dois tópicos relacionados que são abordados e que eu sublinho. A forma como estes desenvolvimentos afectam a política (e vice-versa) e o papel do imperialismo no meio disto.

Quanto aos meus textos, foram escritos em 2013 e 2011, mas parece-me que estão mais actuais agora do que quando foram escritos…

#BlackMonday vai bem para lá do #ChinaMeltdown

Global Ponzi scheme threatens to implode «What appears to be coming to an end is the period when massive infusions of cash by central banks into the financial markets, combined with a ruthless assault on the living standards of the international working class, could paper over the systemic character of the crisis and produce a boom in stock prices, corporate profits and the wealth of the financial aristocracy—even as the real economy continued to stagnate.»

China stock market panic shows what happens when stimulants wear off «But this is about more than China. Financial markets in the west have been booming for the past six years at a time when the real economy has been struggling. Recovery from the last recession has been patchy and weak by historical standards, but that has not prevented a bull market in equities. The reason for this is simple: the markets have been pumped full of stimulants in the form of quantitative easing, the money creation programmes adopted by central banks as a response to the last crisis.»

Wall Street Panic «They’ve been lending trillions of dollars to corporate CEOs (via bond purchases) who’ve taken the money, split it up among themselves and their wealthy shareholder buddies, (through buybacks and dividends neither of which add a thing to a company’s productive capacity) and made out like bandits.»

China can ride out this crisis. But we’re on course for another crash «A dysfunctional model of capitalism, built on deregulation, privatisation and low wages, crashed and burned seven years ago. But the fallout from that crisis is still ricocheting around the world, from Europe to the “emerging economies”, as the attempt to refloat a broken model with cheap credit inflates asset bubbles and share buybacks – or enforce it with austerity – fuels new crises.»

China ao fundo? «Com os mercados financeiros “inundados” de liquidez e com taxas de juro reais muito baixas, não surpreende que os fluxos financeiros se tenham dirigido para o mercado de acções, cujas valorizações têm, em muito, ultrapassado o expectável numa economia medíocre. Ao dar-se um colapso nestes mercados – em praças financeiras onde os agentes embarcaram numa nova onda de endividamento de forma a alavancar os seus ganhos -, as consequências para o sistema financeiro podem ser devastadoras.»

Fed acts to push US stocks higher «Besides the sharp slowdown in Chinese economic growth and collapsing commodity prices, the other acute expression of a worsening world slump and mounting financial problems is the crisis in the so-called emerging market economies. Countries ranging from Brazil, to Russia, Turkey, Indonesia, Thailand, and South Africa are reeling from falling stock and bond prices, plunging currencies, and increasing indebtedness.(…)The US central bank and government, and their counterparts internationally, have focused all of their efforts on rescuing the financial oligarchy and creating the conditions for it to further enrich itself at the expense of the working class.»

As razões da crise e as dinâmicas do capitalismo no início do século XXI

HOW WILL CAPITALISM END? «Growth is giving way to secular stagnation; what economic progress remains is less and less shared; and confidence in the capitalist money economy is leveraged on a rising mountain of promises that are ever less likely to be kept.(…) The capitalist system is at present stricken with at least five worsening disorders for which no cure is at hand: declining growth, oligarchy, starvation of the public sphere, corruption and international anarchy. What is to be expected, on the basis of capitalism’s recent historical record, is a long and painful period of cumulative decay: of intensifying frictions, of fragility and uncertainty, and of a steady succession of ‘normal accidents’—not necessarily but quite possibly on the scale of the global breakdown of the 1930s.»

The global crawl continues «The world capitalist economy has entered a Long Depression and not recovered from the Great Recession in the “normal way” because the profitability of capital in the major economies has not recovered. Indeed, global profitability is at an all-time low.»

The New Imperialism of Globalized Monopoly-Finance Capital «In the twenty-first century imperialism is thus taking on a new, more developed phase related to the globalization of production and finance. All of this, moreover, is occurring in the context of what top U.S. foreign policy strategists are calling a “New Thirty Years’ War” unleashed by Washington for strategic control of the Middle East and the surrounding regions: a new naked imperialism.(…)Given its financial ascendancy, the United States is uniquely able to externalize its economic crises on other economies, particularly those of the global South. As Yanis Varoufakis notes in The Global Minotaur, “To this day, whenever a crisis looms, capital flees to the greenback. This is exactly why the Crash of 2008 led to a mass inflow of foreign capital to the dollar, even though the crisis had begun on Wall Street.”»

Contemporary Imperialism «There is no globalized bourgeoisie (or dominant class) in the process of being formed, either on the world scale or in the countries of the imperialist triad. I am led to emphasize the fact that the centralization of control over the capital of the monopolies takes place within the nation-states of the triad (United States, each member of the European Union, Japan) much more than it does in the relations between the partners of the triad, or even between members of the European Union. The bourgeoisies (or oligopolistic groups) are in competition within nations (and the national state manages this competition, in part at least) and between nations. Thus the German oligopolies (and the German state) took on the leadership of European affairs, not for the equal benefit of everyone, but first of all for their own benefit. At the level of the triad, it is obviously the bourgeoisie of the United States that leads the alliance, once again with an unequal distribution of the benefits. The idea that the objective cause—the emergence of the globalized production system—entails ipso facto the emergence of a globalized dominant class is based on the underlying hypothesis that the system must be coherent. In reality, it is possible for it not to be coherent. In fact, it is not coherent and hence this chaotic system is not viable.»

Clarifying the Crisis «How should we assess the 2008 economic crash — and the political possibilities beyond it?»

The Endless Crisis
How Monopoly-Finance Capital Produces Stagnation and Upheaval from the USA to China
«The authors point out that increasing monopolization of the economy—when a handful of large firms dominate one or several industries—leads to an over-abundance of capital and too few profitable investment opportunities, with economic stagnation as the result. Absent powerful stimuli to investment, such as historic innovations like the automobile or major government spending, modern capitalist economies have become increasingly dependent on the financial sector to realize profits.»

From global slump to long depression

The Long View – The crisis continues – The lifeblood of capitalism – Quantitative easing – Crisis in the USA

Algumas das minhas análises sobre estes temas

Vagas de fundo «A actual crise não é um soluço ou um percalço que será rapidamente superado, estamos a viver uma depressão apenas comparável há que se iniciou em 1929. As consequências desta crise serão profundas, no plano económico, político, social e cultural. O sistema-mundo que irá emergir após esta crise será muito diferente daquele em que vivemos até 2007.(…) Não é certo que haverá novas guerras mundiais, aliás se houverem serão tão diferentes (e semelhantes) das guerras mundiais do século XX como essas foram das guerras Napoleónicas do século XIX. Também as revoluções do século XXI serão tão iguais a 1917, como 1917 foi igual a 1789-1792. Aquilo que é certo é que a intensidade da luta atingirá níveis semelhantes, sendo que a forma que essas lutas tomarão serão moldadas pelas condições sociais e geopolíticas do século XXI.»

Voluntary Enlistment and Departure of Women for military service to the Nation. The image from a broadsheet newspaper likely reflects more about the passionate sentiment among patriotic women to serve the Nation by joining the army than about real events. It certainly attests that passionate patriotism in 1792-93 was widespread and reached across gender lines. It is any aspect of “the nation in arms” and the emergence of modern nationalism during the Revolution.

Voluntary Enlistment and Departure of Women for military service to the Nation. The image from a broadsheet newspaper likely reflects more about the passionate sentiment among patriotic women to serve the Nation by joining the army than about real events. It certainly attests that passionate patriotism in 1792-93 was widespread and reached across gender lines.

Vagas de fundo. Monopolização e economias de escala «Ou seja nos últimos tempos, longe de uma utopia de livre concorrência e reforço da competição, a tendência dominante do capitalismo tem sido para o aumento dos monopólios e a concentração da vida económica num número de empresas cada vez mais reduzido.»

Vagas de fundo. A emergência da China e dos “BRIC”, miragem ou realidade? «O desenvolvimento de um pujante mercado interno Chinês que absorva as exportações do Ocidente é uma das maiores esperanças dos “mandarins” das potências da Trilateral desejosos de escapar à “espiral recessiva”. Mas a questão prévia é saber se a economia Chinesa conseguirá ajustar-se à queda da procura para as suas exportações no mercado ocidental. A China não sofreu mais com a crise de 2008-2009 porque implementou uma política Keynesiana ao quadrado (ou à escala Chinesa…), até que ponto esses investimentos e o crédito concedido obterá o retorno necessário para sustentar a economia Chinesa e possibilitar a margem de manobra necessária a uma reconversão do seu modelo produtivo com vista a uma dinamização do mercado interno, é algo que está por saber.»

Vagas de fundo. A Revolução Digital, telecomunicações e gestão da informação «Mas a adopção da máquina a vapor aos transportes e indústria nos séculos XVIII-XIX teve um impacto tremendo e revolucionário na economia, política e cultura. No final do século XIX o motor de combustão interna e o controlo da produção e difusão da electricidade tiverem um impacto semelhante, permitindo o avião, automóvel, expansão da indústria e sua aplicação a uma enorme quantidade de bens de consumo. Daí para cá não houve muito mais técnicas que tenham tido um impacto semelhante, a não ser… a não ser talvez aquilo que se tem designado por Tecnologias de Informação e Telecomunicações (TIT)…»

Século XXI: Guerra, Ditadura e Revolução

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Grécia. A saída do euro não será feita “a régua e esquadro”

kountouris09-07-15

Nunca há bons momentos para uma ruptura, nunca há condições óptimas para uma revolução, uma saída do euro da Grécia nunca será fácil.

Movimentos desta magnitude geralmente acontecem empurrados pelas forças das circunstâncias e porque há contradições insanáveis que impossibilitam a hipótese da implementação de uma solução de compromisso sustentável. Raramente estas rupturas são fruto de um plano detalhado e meticuloso, aplicado em situações de estabilidade politica-social e económica.

É neste turbilhão em que não há soluções óptimas que temos de navegar e tomar partido pelas opções/decisões que mais potencial de resolver a crise de uma forma emancipatória têm! Sendo que não há nenhuma garantia de sucesso assegurada.

O que existe é a certeza que a “conciliação” neste momento é uma ilusão. Conduzirá a uma muito maior depressão económica e social, conduzirá a uma divisão profunda no Syriza e só poderá ser imposta em cima de um Syriza purgado da sua ala esquerda e de qualquer veleidade de alternativa ao neo-liberalismo. Terá de ser imposta sobre um movimento social esmagado e conduzirá a uma enorme desmoralização dos 70% das classes populares que disseram Não a este acordo no referendo. Abrirá portas a um neo-liberalismo ferozmente autoritário dentro da UE, ou até soluções mais tenebrosas…

O confronto e as decisões duras são inevitáveis neste contexto. Ao menos que sejam adoptadas medidas que possam abrir novos horizontes de esperança e permitam superar a crise de forma progressista! O que neste momento é impossível sem alguma dose de medidas revolucionárias.

UPDATE: Ontem poucas horas após escrever este texto houve violentos confrontos entre a polícia e manifestantes, com cerca de 40-50 detidos. Várias das vítimas da resposta violenta da polícia foram militantes e sindicalistas do Syriza.

Não rompas a corda! Continua a correr até que o lobo se torne vegetariano

Não rompas a corda! Continua a correr até que o lobo se torne vegetariano

Leituras adicionais recomendadas:

Questões à volta de Revoluções e movimentos de massas “realmente existentes”

Da “racionalidade” Alemã na crise Greco-Europeia e correspondente “saída” da Grécia do Euro.

Decoding the IMF: Greek deal doomed, exit likely

Uma dúzia de balanços e perspectivas

An Empire Strikes Back: Germany and the Greek Crisis

Greece: The Struggle Continues

Greece is being treated like a hostile occupied state. A new deal for Athens is the worst of all worlds and solves nothing 

Responder à paz que nos impôs a guerra com a guerra que nos devolva a paz

A arrogância dos incrédulos e as viúvas do Syriza

Negociar com terroristas

O princípio do fim da União Europeia

Sobre as decisões anunciadas pela Cimeira do Euro sobre a Grécia

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