Sobre a Grécia e o governo Syriza. Só o movimento de massas pode derrotar a “austeridade”. No euro não há saída.

O recente documento submetido pelo governo grego e aprovado pelo eurogrupo, marca mais um importante recuo do governo Syriza. Um recuo não apenas face às promessas eleitorais, mas também ao programa de governo aprovado há duas semanas no parlamento Grego. A aceitação de levar a cabo as privatizações em curso, a porta aberta para realizar outras e o compromisso de não recuar em nenhuma das já executadas é apenas um dos mais gravosos exemplos da política de rendição adoptada pelo governo grego.

Tão ou mais grave que o rol de medidas em que o Syriza já claudicou, é a tendência que foi estabelecida nestas “negociações”. A cada reunião, a cada novo documento discutido, a cada pedido de esclarecimento adicional, o governo grego reage invariavelmente com mais cedências… A história de que o Syriza “ganhou tempo” é digna de um verdadeiro “conto de crianças”. O passar do tempo por si só servirá apenas para o Syriza ir faseando o seu processo de capitulação em curso e para não engolir a dura pílula da traição e austeridade de um só trago.

Convém realçar que nos “acordos” já alcançados as cedências e recuos gregos são inequívocos, mas todas as supostas medidas de alívio da austeridade são redigidas de forma bizantina e mais que isso, terão de passar pelo crivo da Troika (agora chamada de “Instituições”). Talvez o mais significativo indicador da submissão do governo grego às “Instituições” seja a garantia de que não tomará qualquer medida “unilateral” sem consentimento dessas mesmas “Instituições”. Para quem alimente ilusões que há medidas que poderão escapar a esse crivo, relembro que em final de Abril as “Instituições” farão um exame às acções e medidas propostas pelo actual executivo. Só depois dessa análise serão libertadas as verbas do empréstimo.

Dito isto, é verdade que a vitória eleitoral do Syriza permitiu alguns avanços. Antes de mais, permitiu avançar em muito o debate à Esquerda sobre a resposta à crise. Nada como a realidade e a discussão em torno de um caso concreto para dissipar certos mitos e validar algumas teses. O debate em curso no Ladrões de Bicicletas e um dos recentes textos de Francisco Louçã são um bom exemplo disso. É cada vez mais óbvio, que sem questionar o euro é impossível escapar à lógica neo-liberal/austeritária. Aliás, sobre essa questão o texto de João Ferreira A dívida, o euro e a banca – um debate inadiável é imprescindível.

Mas para além da questão do euro há outra conclusão fundamental que já se pode tirar deste processo. Sem um movimento de massas ousado e independente da direcção do Syriza o governo grego continuará de cedência em cedência até à capitulação total. Tsipras está em aceleradíssimo processo de “Hollandização”. Só as massas na rua, se necessário for em directa oposição ao governo (sobretudo à facção cão-de-fila do euro personificada pelo capitulacionista-mór Varoufakis), poderão derrotar a austeridade. Sobre todas estas questões recomendo vivamente o texto de Richard Seymour, nele encontrei a mais lúcida e completa análise a todo este processo.

 

Mais vale um “riot dog” nas ruas que cem Varoufakis em mil “negociações”

Esta quinta-feira na Grécia já estão marcadas manifestações contra os acordos de capitulação.

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