Grécia. Ruptura ou Traição.

A poeira ainda não assentou, mas as notícias que chegam de Bruxelas-Atenas são de uma rendição quase total do Syriza. Tem razão Stathis Kouvelakis em apelar a todos os membros e simpatizantes do Syriza para se oporem a este pré-acordo.
Entretanto, parece-me que o centro dos acontecimentos irá se transferir dos corredores do poder europeu para as ruas da Grécia. No Domingo houve uma manifestação contra as cedências e em apoio ao governo Syriza, na segunda-feira uma da direita pró-troika/euro e anti-Syriza (com uma pequena contra-manifestação de anarcas), terça a manifestação foi do KKE/PAME contra o acordo de traição. O Antarsya marcou uma assembleia popular amanhã (dirigida a toda a esquerda) com o objectivo de convocar uma manifestação para domingo (provavelmente o dia em que o acordo será levado ao parlamento) e apelar à greve geral.
A situação poderá vir a tornar-se extremamente “interessante”. Como escrevi após o acordo de 20 de Fevereiro:
«Sem um movimento de massas ousado e independente da direcção do Syriza o governo grego continuará de cedência em cedência até à capitulação total. Tsipras está em aceleradíssimo processo de “Hollandização”. Só as massas na rua, se necessário for em directa oposição ao governo (sobretudo à facção cão-de-fila do euro personificada pelo capitulacionista-mór Varoufakis), poderão derrotar a austeridade.»

No início deste processo era bastante compreensível a táctica de procurar um acordo com as “instituições”, mas passado algum tempo ficou claro que seria impossível alcançar qualquer tipo de entendimento minimamente decente para o povo Grego. Os esforços desesperados de Alexis Tsipras em alcançar um compromisso tornaram-se um tanto ou quanto ridículos, para não dizer patéticos. Neste momento, continuar a dizer que se quer um “acordo” com os “parceiros europeus” é pura e simplesmente atirar areia para os olhos do povo e uma traição ignóbil à luta contra a austeridade protagonizada pelo povo grego e pelo próprio Syriza.

Chegados a este ponto há algumas conclusões que se impõe:

  • 1º  – Está provado que aceitando o euro e não querendo entrar em default não existe qualquer margem de manobra para combater de forma eficaz a austeridade e o rolo compressor neo-liberal (as duas não são formalmente equivalentes mas não é possível um default sem estar preparado para sair). As poucas concessões obtidas pelo governo grego resultaram aliás do medo de uma saída. Sem ter assumido isso como hipótese estratégica o poder negocial do governo grego foi quase nulo. Chegado à véspera do pagamento ao FMI e com os bancos garrotados pelo BCE Tsipras não teve alternativa se não recuar ainda mais.
  • 2º – Não basta estar disposto a sair do euro. É também necessário estar disposto a tomar medidas revolucionárias que vão além dos actuais limites da legalidade, nomeadamente das regulamentações da União Europeia. Por exemplo, como é que seria possível qualquer negociação com o mínimo de força, quando o banco central da Grécia é dominado por um fantoche do FMI ex ministro das finanças da Nova Democracia?  Quando o BCE tem mais poder sob a banca grega que o próprio governo eleito da Grécia? Como é possível qualquer luta contra a austeridade neo-liberal se a banca está em mãos privadas?
  • 3º – De forma alguma poderá a Esquerda que combate a austeridade e o neo-liberalismo associar-se a um acordo que impõe brutais medidas de austeridade e privatizações mil. De forma alguma um governo minimamente honesto, que foi bandeira e símbolo de luta anti-austeridade, poderá assinar um acordo que trai todos os seus princípios e a confiança que nele depositou o povo. A maior tragédia que poderia acontecer à Esquerda era estar associada a esta brutal rendição e entregar de mão beijada a luta contra a austeridade à extrema-direita/direita demagógica. Sejamos claros, numa primeira fase o dever da Esquerda do  Syriza é lutar pelo controlo do partido e derrotar os traidores. Mas se os capitulacionistas impuserem a sua vontade sobre o Syriza, então o dever da Esquerda é de estar em guerra aberta com esse partido degenerado e o seu governo de farsa.

É altura de enfrentar de frente a dura realidade, é altura de fazer uma ruptura com a máfia das “instituições”. É altura de confiar na capacidade do Povo Grego em superar as dificuldades, de confiar na solidariedade dos povos europeus e de tentar acordos com parceiros internacionais que não estejam a negociar com o único objectivo de derrubar o governo Syriza… É altura de cancelar o pagamento da dívida, nacionalizar a banca, de tomar o controlo do banco central, expropriar a oligarquia corrupta grega e preparar a saída do euro.

solidariedadeEuropeia

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2 respostas a Grécia. Ruptura ou Traição.

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