Da “racionalidade” Alemã na crise Greco-Europeia e correspondente “saída” da Grécia do Euro.

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A imagem acima não é uma sátira com origem na imprensa anglo-saxónica ou uma caricatura surgida num dos “Pigs”. É a capa de ontem do jornal com maior tiragem na Alemanha, onde se faz um apelo para que Merkel não “ceda” perante a Grécia. O Bild exclama “precisamos de uma Chanceler de ferro”.

Na verdade, como esclarece o Der Spiegel, o contribuinte Alemão ainda não deu um euro que fosse à Grécia. Pelo contrário, pode vir a ter de pagar, e muito, se a Grécia sair do euro e declarar default. Mas isso não impede que o clima na Alemanha seja “nem mais um tostão para a Grécia”, quer nas elites comandadas pelo “Dr. Estranhoamordas finanças, quer em largos sectores da população…

Quando a meio da campanha do referendo perguntaram a Tsipras se não havia a hipótese da Grécia ser expulsa do euro, o primeiro-ministro Grego respondeu: “Não, os riscos e custos seriam altíssimos para toda a Europa, não se vão atrever a fazer isso”… Esta é uma resposta que me dá vontade de rir às gargalhadas… Pensar que existe uma “racionalidade” Alemã que em última análise irá impedir uma saída/expulsão da Grécia do euro é uma ilusão. Só pode apostar nisso quem é ignorante, ou quem está deliberadamente a tentar enganar o povo, na vã tentativa de escapar a decisões dificílimas.

A expulsão da Grécia do euro não é o plano A das classes dirigentes Alemãs e dos seus satélites, aquilo que pretendem é desacreditar completamente o actual governo Grego e com isso qualquer veleidade de que na União Europeias há caminhos alternativos ao austeritarismo neo-liberal. A questão é que para atingirem esse objectivo estão dispostos a suportar os custos, incertos, de uma expulsão de facto da Grécia do euro.

Aquilo que não podem, nem vão fazer é chegar a qualquer acordo com Tsipras que possa ser minimamente percepcionado como uma cedência ou um alívio da austeridade. Muito menos irão conceder qualquer reestruturação da dívida. Se porventura as classes dirigentes Alemãs aceitassem isso estariam a destruir as bases do seu domínio actual sobre a Europa e da sua prosperidade (das classes dirigentes, não do povo). Ceder a Tsipras seria entregar o poder ao Podemos em Espanha, ao Sin Fein na Irlanda e às várias matize de “populismo” em Itália, apenas para mencionar os casos mais óbvios. Depois de uma reestruturação da dívida Grega iria seguir-se, mais cedo que tarde, um alívio da dívida em Espanha, Portugal, Itália e por aí fora… Já para não falar na dificuldade que seria impor mais “reformas estruturais” onde quer que seja… Com que autoridade poderiam Hollande ou Renzi tentar impor medidas adicionais de austeridade aos seus povos após Tsipras conquistar para a Grécia um alívio significativo?

Portanto, a posição duríssima da Merkel/Schauble e seus satélites não é a de um louco furioso que por capricho prefere deitar fogo à Europa do que encontrar uma solução “racional” que salve o “projecto Europeu”. Antes pelo contrário, a “racionalidade” dos interesses das classes dirigentes centro e norte europeias obriga-as a serem absolutamente inflexíveis e impiedosas perante a Grécia. Se dessa inflexibilidade resultar uma saída da Grécia do euro, então que assim seja, do ponto de vista dos seus interesses esse é um risco que estão dispostos a sofrer para defender a posição que actualmente ocupam na Europa e no mundo. É que se a saída da Grécia trás riscos, que poderão até vir a ser de magnitude trágica, uma cedência ao Syriza trás a certeza que o seu “projecto Europeu” sofre um abalo fatal. Isso mesmo já foi explicitamente assumido por vários “oficias” europeus que com suprema indignação afirmaram “O Syriza quer mudar as regras da europa”, Oh suprema heresia! E suprema-mega ilusão pensar que essas “regras” alguma vez irão ser alteradas sem romper com a actual “construção europeia”.

Esta “racionalidade” inflexível da Alemanha não é nenhuma novidade histórica. Parece que nos esquecemos que por duas vezes no século XX as classes dirigentes teutónicas arrastaram a Alemanha, a Europa e o mundo para tragédias nunca antes vistas na História da humanidade! Porque razão o Reich pós queda do muro se irá comportar de forma diferente na alvorada do século XXI? As ferramentas e os métodos são diferentes, mas a lógica é a mesma. Daí ser importante olhar para a história e interpretá-la de forma rigorosa! As direcções do II e III Reich não despoletaram tragédias descomunais porque eram loucas ou irracionais, antes pelo contrário, as decisões que tomaram obedeceram à “racionalidade” dos interesses que estavam a defender. Essas direcções correspondiam às necessidades e natureza do capital Alemão nas respectivas épocas.

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Neste momento já é clara a resposta do Reich que preside há União Europeia ao referendo Grego. A existir qualquer acordo, ele será ainda mais punitivo que aquele que foi rejeitado de forma esmagadora pelo povo Grego e sem qualquer compromisso formal com uma re-estruturação da dívida. Se Tsipras não ceder ao ultimato o BCE fecha a torneira e a banca Grega fica impossibilitada de distribuir mais euros. Não é uma expulsão formal do euro, é uma expulsão de facto. Aliás, toda a discussão em torno de a “Grécia deve ou não sair do euro” já está um bocado datada, neste momento a Grécia já está excluída do acesso à sua suposta moeda, o processo de “saída” da Grécia do euro já está em curso e numa fase bem adiantada!

Houve quem pensasse que uma “agitação” nos mercados poderia forçar as “Instituições” a chegarem a um compromisso “razoável” com a Grécia, é mais uma pura ilusão para juntar a uma extensa colecção. Agora que uma ruptura parece cada vez mais provável, a última esperança dos sectores “razoáveis” do regime reside na pressão dos EUA, da França (e talvez da Itália) para impor uma “racionalidade” mais universal e flexível, sobre a “racionalidade” de ferro intrínseca ao Reich Alemão em momentos de crise e confronto. Estas tentativas de última hora também não são uma novidade histórica e ou muito me engano ou terão o mesmo destino que as anteriores

De resto, não é por acaso que algumas das mais consistentes análises a este processo vêm precisamente do “establishment” Anglo-Saxónico. Uma das mais plausíveis narrativas para os últimos desenvolvimentos encontra-se na imprensa Britânica e das mais prescientes reflexões acerca deste assunto encontram-se na Stratford Norte-Americana, que já vem discutindo a “desintegração” europeia há muito tempo…

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Tsipras esteve certo ao convocar o referendo, a legitimidade conquistada com a vitória nas eleições não era suficiente para permitir um conflito directo com o Reich/UE. Poderia era, entre muitas outras coisas, ter realizado esse referendo mais cedo e em melhores condições… Mas seja como for, chegado a esta encruzilhada, não há manobras que lhe permitam escapar a decisões duras. Entre o mais recente ultimato do Reich/Europa e o esmagador OXI do povo grego, Tsipras tem poucas escapatórias. Ou parte para um confronto com a União Europeia e a oligarquia grega, ou é a capitulação total. Diria mais, quer fosse a sua intenção ou não, a convocação do referendo e o seu resultado apoteótico e moralizador produziu uma alteração qualitativa no processo histórico. O Rubicão foi atravessado, Alea iacta est. Agora, ou Tsipras e o Syriza encabeçam este processo, ou de uma forma ou outra, pela reacção ou revolução, serão varridos pela maré da História.

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2 respostas a Da “racionalidade” Alemã na crise Greco-Europeia e correspondente “saída” da Grécia do Euro.

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