Crise dos Refugiados. O cínismo de Merkel e quando as vítimas do Império batem à porta…

A crise dos refugiados em fuga da Síria, Afeganistão, Líbia e outros teatros de guerra ou catástrofe social tem se intensificado nos últimos tempos. Antes de mais considero importante afirmar total solidariedade com tod@s que sofreram e sofrem terrivelmente nestas migrações. Gente que literalmente enfrenta uma morte certa (ou pior) no seu país de origem e todo o tipo de incertezas, muitas vezes fatais, na procura de um refúgio seguro… Mas a empatia e solidariedade sendo princípios importantíssimos por si só não levam a muito. São necessárias decisões e mudanças políticas, nomeadamente na Europa e Médio-oriente, para resolver esta catástrofe. Do muito que se poderia discutir sobre o tema, chamo atenção para duas questões.

11951140_885733271518173_8514170229909173402_n

Merkel a Cínica

Recentemente Merkel e a Alemanha têm sido elogiados pela sua postura “de braços abertos” nesta crise… Mas a Alemanha que afirma estar disposta a receber os refugiados é a mesma Alemanha que tem constantemente reafirmado a importância de se cumprir a legislação europeia, nomeadamente o tratado e regulamentações de Dublin (aqui e aqui). Ora de acordo com Dublin a maioria dos migrantes e refugiados que entram na União Europeia devem ser acolhidos e os seus pedidos processados pelo estado membro onde esses migrantes entraram na UE. A Alemanha não tem fronteiras com nenhum estado que esteja fora da União Europeia, logo fica quase completamente imune à vaga de refugiados que bate à porta dos estados membros-fronteira (como a Itália a sul e a Grécia a Leste).

A Hungria e o seu proto-ditador têm sido retratados como os “maus da fita”, sem dúvida que o regime proto-nazi de Orban merece todo o nosso ódio e desprezo. Mas se a Hungria não deixa passar os migrantes para a “bondosa” Alemanha é porque simplesmente está a cumprir a legislação europeia. De resto a Alemanha (mesmo no decorrer desta crise) várias vezes reafirmou que esta deve ser cumprida, sobretudo a parte em que todo o processo e acolhimento deve ser feito no estado membro de entrada dos refugiados. Aliás, quando há dias a Hungria deixou passar alguns comboios com refugiados em direcção à Alemanha, logo o governo Alemão lançou críticas e reafirmou a necessidade da Hungria cumprir as regulações

O cinismo Alemão personificado em Merkel é de proporções equiparáveis à dimensão desta tragédia… Como é que mesmo à Esquerda (e.g. Catarina Martins) há quem faça elogios a Merkel à algo que não percebo. Quando a Alemanha decidir alterar os tratados de Dublin, de forma a que os refugiados sejam acolhidos no país da sua escolha dentro da UE, aí sim haverá razões para saudar Merkel e a Alemanha, mas não é isso que a Alemanha está a fazer. Merkel tem jogado o hipócrita papel de quem se apresenta como maternal casa de acolhimento a todos quantos queiram, quando ao mesmo tempo exige aos estados-fronteira, nomeadamente a “maléfica” Hungria, para que cumpra as “regras” e não deixe passar os migrantes!

ISIS-presence-in-Saudi-Arabia-Feasible-or-not

Quando as vítimas da barbárie imperialista batem à porta

Mas de onde vêm estes migrantes à procura de refúgio e porque chegam agora em maior número? A maior parte deles vem da Síria, muitos são da Líbia ou utilizam esse país como trampolim para chegar à Europa… Ora, quem é que directamente causou o caos e barbárie que leva centenas de milhar, para não dizer milhões, a fugir da sua terra natal em busca de um lugar seguro? Quem é que derrubou Kadafi na Líbia? Quem é que transformou esse país num estado sem lei, presa de fascistas islâmicos e local onde todo o tipo de selvajaria impera? Quem é que apoiou os fascistas islâmicos e outros terroristas com armas, ataques aéreos “on demand” e até tropas especiais no terreno? Pois é, foi o “Ocidente” com vários países da UE  (nomeadamente a França) a demonstrarem até mais vontade em destruir a Líbia que os próprios EUA… E o que dizer da Síria? Quem é que apoiou e incentivou a Al-quaeda e a ISIS na luta contra o regime? Quem é que ainda hoje apoia financeiramente, logisticamente e às vezes até directamente esses grupos? Pois bem, a Turquia e a Arábia Saudita, dois dos maiores aliados do “Ocidente” na região, sendo que a Turquia é inclusive membro da NATO! Aliás, para lá destes dois baluartes no apoio aos bárbaros fascistas islâmicos, as próprias potências ocidentais (nomeadamente EUA, Reino Unido e França) até há pouco tempo também armaram e deram apoio a grupos muitos deles ligados aos fascistas islâmicos.

As actuais vagas de migrantes são resultado directo da interferência das várias potências imperiais no Médio-oriente. Em alguns casos intervenções directas, noutros através do apoio aos seus cipaios locais.

Há alguma perspectiva de fim destas intervenções imperiais? Do fim do apoio “Ocidental” às forças mais bárbaras e reaccionárias no Médio-oriente? Não, antes pelo contrário… Na Síria, o pouco que se fez contra a ISIS por iniciativa dos EUA, em cooperação com as milícias Curdas, foi recentemente posto no caixote do lixo. Basicamente os EUA venderam os Curdos aos Turcos, em troca de um suposto apoio da Turquia contra a ISIS. Mas o que é facto é que armada com esse acordo a Turquia atacou violentamente os Curdos, deixando a ISIS livre de um incómodo inimigo

E o Iémene? Esta é a próxima grande fonte de refugiados. Está aí em curso uma autêntica tragédia , causada  pela agressão ilegal e assassina liderada pela Arábia Saudita de que muito pouco se tem falado. É mais um caso em que toda a hipocrisia e barbárie do império e seus cipaios é por de mais evidente. Enquanto a Arábia Saudita bombardeia civis pelos ares (com bombas e aviões made in “ocidente”), a ISIS faz atentados suicidas por trás das linhas (aqui e aqui).  Aliás, mesmo baluartes imperiais da imprensa como o Washington Post, admitem que nos territórios em que os mercenários sauditas afastaram os rebeldes do movimento Houthi. a Al-Quaeda e o Estado Islâmico têm ocupado o vazio. Desde o início da agressão Saudita o Estado Islâmico e a Al-Quaeda têm expandido a área sob seu controlo.

Quem é que ainda se lembra da febre “Je suis Charlie”? A organização por detrás desse atentado foi a Al-Quaeda no Iémen. Exactamente o grupo que mais vantagens está a tirar do ataque Saudita ao Iémen, ataque esse patrocinado pelos mesmos líderes imperiais hipócritas que há uns meses enchiam a boca com o “Je suis Charlie”! O cinismo e hipocrisias imperiais não conhecem limites…

Sem por um fim às aventuras imperiais no médio-oriente, sem por um fim ao apoio imperial aos bárbaros Sauditas-ISIS, a grave crise dos refugiados não será resolvida. Medidas de alívio de curto prazo e outras podem e devem ser tomadas, o problema até pode ser (ou não) mitigado, mas sem um travão à intervenção imperialista o problema não será resolvido.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Uncategorized com as etiquetas , , , , , , , . ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s