O Combate ao Racismo e a Unidade da Classe

«Esta organização dos proletários em classe, e deste modo em partido político, é rompida de novo a cada momento pela concorrência entre os próprios operários. (…) A coesão maciça dos operários não é ainda a consequência da sua própria união, mas a consequência da união da burguesia, a qual, para atingir os seus objectivos políticos próprios, tem de pôr em movimento o proletariado todo, e por enquanto ainda o pode» (Marx & Engels, in Manifesto do Partido Comunista)

Há uns meses atrás tive o gosto de, na sequência de mais uma das já incontáveis intervenções repressivas das forças policiais num bairro pobre dos arredores de Lisboa, participar num debate promovido pela Associação Moinho da Juventude, na Cova da Moura. Uma das intervenções que mais me marcou nessa tarde foi a de um jovem, de origem africana, que dizia achar extraordinário viver num país cujo hino começa com a expressão «Heróis do Mar», cuja bandeira ostenta a esfera armilar, e onde, ainda assim, é aparentemente hegemónica a ideia de que a população não é particularmente racista. Era justíssima a intervenção e, à luz dos acontecimentos que a possível entrada de um contigente na ordem de algumas centenas de refugiados do Médio Oriente em Portugal – muitíssimo menos do que as largas centenas de milhares que vivem hoje, por exemplo, no vizinho Líbano -, ela suscita uma reflexão extremamente importante para os nossos dias, sobre um tema que em geral se considera menor, sem que se perceba muito bem porquê.

A divisão dos trabalhadores e a garantia de que estes não podem unir-se para defrontar convenientemente a exploração capitalista é um esforço a que a burguesia dedica os seus melhores esforços,  no qual empenha os seus quadros mais preparados, para o qual tem reservadas somas prodigiosas de dinheiro, meios tecnológicos dos mais avançados, organizações as mais complexas. E erra de forma clamorosa quem considera que a divisão da classe é sempre feita de bastão em punho, viseira descida, cão-polícia pela trela, polícia-cão gritando «à carga!». Engels dizia que a história humana não conheceu criatura mais burgessa que o moderno homem de negócios, mas a realidade demonstra que este sabe ser, ou pelo menos sabe contratar para o servir, homens dotados de uma especial atenção à subtileza, e capazes de a usar com velhacaria.

Marx e Engels, vemo-lo na frase acima, sabem que em capitalismo os trabalhadores estão condenados a uma saga contraditória de concorrência entre si e necessidade de unidade de classe. Concorrem por melhores salários, e unem-se para obter melhores salários. Concorrem por promoções, e unem-se prestigiar o sector de actividade a que pertencem. É escusado dizer que a grande aposta da burguesia é na exploração de tudo o que possa incrementar essa disputa, e em dissuadir tudo o que possa reforçar a unidade da classe. São vários os mecanismos puramente gestionários para o obter dentro da própria empresa: leques salariais alargados, comissões, prémios, estímulo da competição e do individualismo, são vários deles. Mas a burguesia sabe que a destruição da unidade da classe não é um problema que se deva entregar aos gestores de empresas apenas e só. É uma questão política fundamental, que todos e cada um dos seus instrumentos de dominação têm de promover. E a melhor forma de o fazer é transpor para a competição entre os trabalhadores aspectos da própria concorrência entre empresas: e se há empresas melhor munidas que outras, criam-se trabalhadores melhor munidos que outros.

Num insuportável filme australiano que vi há uns anos, sobre bandos de neo-nazis que atormentam a comunidade vietnamita numa cidade qualquer do Norte daquele país, a dado passo um deles dizia «eu tenho enorme orgulho na minha herança de homem branco! Um dia poderá ser tudo aquilo que eu tenho!». Poucas frases poderiam ser mais absolutamente rigorosas na definição de um sentimento profundo, arcaico, inconsciente decerto, informe enquanto ideologia, mas extraordinariamente verdadeiro: ser branco é um privilégio. Use-se a palavra com tudo o que ela tem, e não temamos recorrer a ela. Como ser heterossexual, como ser homem, como ser jovem e bonito, como ser adaptado, como não ter deficiências nem defeitos físicos. Um privilégio que, na esmagadora maioria dos brancos que se levantam às 6h da manhã para trabalhar 8 horas e ganhar 500 euros, entre duas longas fastidiosas viagens entre a casa e o trabalho a contar os cêntimos para pagar os óculos do filho, sob a direcção de um patrão autoritário e de um Estado que disputa com o patrão cada migalha de riqueza que o desgraçado produz (para entregar ao patrão assim que possa), ser branco é tudo aquilo que ele tem. É o que lhe permite olhar de cima para baixo para alguém, o que lhe permite relativizar o seu próprio sofrimento, o que o conforta e o funde numa comunidade maior onde os poderosos também estão. Não há Belmiros de Azevedo ciganos nem Alexandres Soares dos Santos vindos da Síria ou da Líbia num barco apinhado. O trabalhador branco é da estirpe dos primeiros, e naturalmente desprezará os segundos. É devido chamar mesquinhez à mesquinhez, mas se não percebermos como a mesquinhez nasce, nunca a iremos erradicar.

A burguesia sabe perfeitamente que esses privilégios existem. Foi ela que os compreendeu, que os exacerbou, que os transformou num elemento funcional do modo produção onde quem manda é ela. Por que outro motivo veríamos a burguesia levantar muros ao redor da Europa, cercá-la de arame farpado, pôr homens armados em torres de vigia, levar ao engano milhares de sírios para campos de trabalho na Hungria, bater-lhes, fazê-los morrer no mar? Expulsos da sua terra pelas bombas assassinas da NATO e das organizações que o imperialismo pagou para desestabilizarem países inteiros (o mesmo imperialismo que ousa falar de combate ao terrorismo), chegados às margens da Europa os condenados da Terra cumprem uma segunda função: a de servirem de bode expiatório da exploração que as potências ocidentais impõem em sua casa, alvo das frustrações dos trabalhadores cada vez mais pobres, cada vez mais exasperados, cada vez mais ressentidos com a frustração de expectativas de vida. A absoluta ausência de um horizonte de vitória possível, de melhoria, de um qualquer lugar onde possam respirar – reforçada pela hegemonia insuperável do sindicalismo de gabinete, do pacto social, e do eurocomunismo no essencial dos países europeus -, só faz descer ainda mais prodigiosamente a espiral da raiva – e incapaz de conquistar mais, o trabalhador tentar por todos os meios não perder mais. Quer conservar o que tem, o que está, o que sobra. E o pouco que lhe sobra for a cor da pele, vai agarrar-se a esse resquício com quantas forças tiver.

Os que chegam de novo, por seu turno, ainda mais explorados que o branco de há pouco, permanentemente ameaçados com a deportação, a cadeia, a violência da polícia, do SEF, do diabo, são no entanto mais braços para o trabalho comum. Trabalho a que metem as mãos com afinco, por vezes: voltando à Cova da Moura, não pude deixar de sentir uma enorme satisfação quando um dos primeiros murais que vi representava ninguém menos que Amílcar Cabral. A consciência da opressão – que a omnipresença dos casse-têtes de polícia, mesmo que estes quisessem esquecê-la, ali estaria para lembrar – é grande. A combatividade também. Mas se o branco arremete contra o estrangeiro que rouba empregos e vive da segurança social, o segundo assume como suas as críticas que lhe fazem (muitas vezes não sem inteligência: há actividades ilegais manifestamente mais rendosas que o trabalho escravo que a burguesia lhe reserva, e o branco que, de resto, também acha muito bem que não esteja um cigano à espera dele atrás do balcão da Zara), sobrevive como é previsível sobreviver-se ao desemprego prolongado e ao enxovalho geral, e de parte a parte se vão gerando e reforçando incompreensões, desentendimentos, distâncias. O único ganhador desta disputa, previsivelmente, é o burguês que arrebanha indiferentemente a riqueza produzida por mãos europeias, angolanas, sírias, ou brasileiras.

Lançar pontes que quebrem estas divisões pode ser uma tarefa extremamente difícil. Congregar e fazer compreender que os interesses do conjunto da classe trabalhadora ultrapassam quezílias e divergências religiosas, tonalidades de epiderme e texturas de cabelo, é um esforço cuja dimensão é igual à da tarefa que ele cumpre: a de garantir a unidade da classe. Dizem alguns que a luta sectorial é secundária em relação à luta de classes, dizendo outros que a precede. O erro é previsível, porque ambos se esquecem da dialéctica entre ambas: não há unidade da classe sem desmantelar todas as coisas que a separam e desorganizam, num esforço difícil, paciente, complicado, mas vital, de ruptura com todos os atavismos, todos os idealismos, todas armadilhas cuidadosamente montadas pela burguesia. Não há proletariado desorganizado: há proletariado organizado pela burguesia, e proletariado organizado pelas suas organizações de classe. E a primeira – e hoje esmagadoramente maioritária – fracção de classe do proletariado demorará ainda muito tempo, e precisará de ser educada na luta concreta pelas mais diversas formas, até se despojar da tralha ideológica xenófoba, chauvinista, racista liminarmente, que a burguesia alimentou no seu espírito.

Enquanto refugiados sírios se preparavam para chegar a Portugal, fotos de sem-abrigos portugueses nas ruas das principais cidades povoavam as redes sociais denunciando que se apoiavam estrangeiros antes de se apoiarem nacionais. Cravando unhas em redor do privilégio de serem portugueses e reclamando apoio para os seus compatriotas antes de se atender a desgraça «deles», a fracção desorganizada da classe não se lembrou de fazer uma pergunta que ocorre imediatamente à esquerda: como foi possível que aqueles homens e mulheres se amontoassem em filas compactas, longas, imensas, à espera de uma sopa quente? O que fizemos nós para o impedir? O que podemos fazer para que, com o seu trabalho, o seu dinheiro, a sua dignidade, não tenham de mendigar comida às Jonets deste mundo? Se a fracção recuada das massas se indigna com a pobreza, com o absurdo de miséria a que milhares são condenados neste país temos uma proposta para eles: saiam à rua, exijam o fim dessa situação, combatam quem a criou, o patronato, os governos e partidos ao seu serviço, o único sistema que reserva a seres humanos uma situação dessa natureza, que é o capitalismo. E seguramente, nessa luta, contarão com o apoio de muitos e muitos imigrantes e filhos de imigrantes, gente que viu a miséria dos musseques, dos morros, das ruas árabes, das cidades do Bangladesh, e não a quer nem para si, nem para os seus, nem para os que vivem no país que os acolheu. Nessa altura entenderão o que só dessa forma se pode entender.

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